Páginas

terça-feira

Planejamento de viagem: amar ou odiar?

Tenho pra mim que quem viaja sem planejamento é porque está muito bem de vida e pode se dar ao luxo de cair no tédio, ou gastar tempo da viagem pra decidir o que fazer na hora mesmo. E nem acho que seja só pra viagem internacional, mas pra destinos nacionais mesmo. O ponto é que, independente disso, eu descobri que AMO planejar viagens. Pode ser que eu nem tenha uma viagem planejada de fato, mas as vezes começo a procurar opções de hotéis pra lugares que eu gostaria de ir algum dia, só pela diversão de fazer a pesquisa mesmo.

Apesar de ter começado a viajar de verdade mais tarde na vida (por volta dos meus 21, 22 anos), acho que desenvolvi algumas técnicas de organização que valem a pena o compartilhamento, e é pra isso que eu pretendo usar esse post.

Pra começar, eu tenho uma pasta no meu Google Drive só pra viagens e cada destino tem uma pastinha separada que, normalmente, tem 4 arquivos: 1 doc pra ir jogando links relevantes de pesquisa, 1 mapa pra jogar, sem muita organização, os lugares que eu pesquisei e pareceram interessantes, 1 sheets completão que vai ter o roteiro, lista das tarefas, lista do que levar na mala, etc, e mais 1 mapa organizado por dia pra montar em paralelo com o roteiro. Porque eu sou muito legal, através desse link você consegue acessar e copiar um modelinho desses arquivos.

Foto por That's Her Business no Unsplash.

Parte 1 - A pesquisa

Normalmente o planejamento começa pelo primeiro doc de pesquisa. Vou pesquisando o destino no google pra descobrir o que tem pra fazer por lá e as coisas que eu gosto. Eu sou muito mais a pessoa dos passeios culturais, do que das compras por exemplo, então gosto de pesquisar museus, os eventos que vão acontecer no destino enquanto eu estiver lá, etc. E aí vou jogando os links mais interessantes no doc, separando por temas como Museus, Parques, Monumentos, Restaurantes, Cafés, Compras, etc.

Junto com o doc, já da pra ir preenchendo o primeiro mapa também. Se eu vou pra mais de uma cidade, costumo dividir o mapa em camadas, uma pra cada cidade. Nesse arquivo, eu vou colocando o endereço das coisas que eu achei mais legais, os restaurantes que pareceram bons, etc. Esse mapa vai ser útil para duas coisas: conseguir visualizar as atrações que estão perto uma da outra, o que facilita pra pensar o roteiro por dia. E, durante a viagem, se tiver algum momento livre que você não sabe muito bem como aproveitar, é só abrir esse arquivo que você vai lembrar as coisas que já tinha pesquisado.

Parte 2 - As listas

Outra coisa que também da pra fazer em paralelo à outras que já mencionei, é ir preenchendo no sheets a lista de coisas que precisam ser feitas pra viagem. Nela entram coisas como tirar visto, comprar moeda estrangeira, reservar um passeio x, comprar passagem para ir de uma cidade pra outra, contratar pet sitter... tudo o que fizer sentido pra você e praquela viagem específica. Sabendo qual é o clima que faz no seu destino quando você vai estar lá, também da pra fazer a lista do que levar. Uma vez que essa lista estiver pronta, ela muda pouco de viagem pra viagem e você vai só reaproveitando ela.

Parte 3 - O Roteiro

Quando acho que o primeiro doc já tem bastante informação, eu reservo um tempinho pra pensar no roteiro. Acabo voltando nos links que eu já tinha pesquisado, mas é inevitável fazer novas buscas. E a vibe toda do roteiro também depende de como eu espero que a viagem seja. Quando eu fui pra Los Angeles, por exemplo, era a minha viagem dos sonhos e eu não queria desperdiçar nenhum minuto, então pensei no roteiro de hora em hora. Já pra uma viagem mais tranquila eu só dividi os dias entre manhã, tarde e noite. Eu também costumo sinalizar os compromissos que não tem como reagendar (como um show ou uma festa) e, além das coisas que eu sei que não quero deixar de fazer, também deixo algumas sugestões de atividades secundárias que eu posso fazer caso sobre tempo. Isso tudo sinalizado com cores diferentes. 

Com os dias razoavelmente planejados, eu começo a abastecer o mapa por dia, criando uma camada pra cada dia (as vezes é preciso colocar mais de um dia por camada por conta do limite no número de camadas que podemos criar) e uma cor diferente pra cada dia também. A partir do momento que esse mapa estiver montado, você vai conseguir visualizar com mais facilidade, se o seu roteiro está realmente prático, além de ter o endereço de tudo o que você decidiu que com certeza faria parte da sua viagem. Clicando aqui, você vai ver um vídeo onde eu explico como eu uso os mapas.

Ainda na aba do roteiro, também deixei um espaço pra pensar nas roupas que eu gostaria de usar em cada dia. Sabendo as atividades da pra planejar os looks e otimizar o tempo de montagem da mala e os itens que vão nela.

Parte 4 - Admirar o seu planejamento até o dia da viagem

A verdade é que eu finalizo os últimos detalhes do roteiro poucos dias antes da viagem porque sempre sobra uma coisinha ou outra pra fazer. Mas até lá, eu tenho o costume de abrir todos os arquivos de vez em quando só pra ficar olhando a parte do planejamento que já está pronta e pensando o quanto a viagem vai ser incrível. 

Acho que é por isso que eu gosto tanto dessa parte de panejar a viagem. Porque a sensação é de que ela começa assim que eu faço a primeira busca no Google. Se você passar a encarar dessa maneira, aposto aqui e agora, que vai passar a amar o planejamento também.

Capsula do Tempo

Foto de Kai Pilger na Unsplash


Há 10 anos, mais precisamente no dia 11 de junho de 2012, graças a um projeto chamado "365 nuncas" (da um google aí ;)), eu escrevi uma carta pra mim mesma que seria reenviada pra mim depois de uma década. Lembra de uma trend que aconteceu um pouco depois, de fazer uma carta pra você de 10 anos atrás? Me deu vontade de repetir e mandar um alô pra Priscila de 20 anos que estava, numa segunda-feira, dedicando um tempinho dela pra escrever essa carta pra mim. Bora lá...

Eu estava em: Escritório de casa em Caieiras;
Em volta de mim estava(m): Meu avô, na sala, assistindo futebol;
Em 10 anos eu gostaria de estar em: Meu apartamento no centro de alguma cidade grande;
Eu esperava pro futuro: Mais confiança, mais respostas do que perguntas.

Priscila, eu ri muito quando vi que você tirou férias do trabalho pra estudar pras provas da faculdade, porque, se eu tivesse lembrado que você tinha feito isso em 2012, teria me poupado um bocado de sofrimento entre o final de 2021 e começo de 2022. Depois de se debater muito tentando trabalhar, estudar e se mudar ao mesmo tempo, a gente finalmente decidiu tirar férias pra fazer a mudança sem pirar. E foi aí que eu percebi que ao mesmo tempo que um monte coisa mudou, tem muita coisa que continua igual também, e que eu podia me apoiar mais na sua sabedoria de vez em quando. 

Não vai ter muita graça se eu te der spoiler de tudo, mas a gente conseguiu muita coisa do que a gente queria. Eu, de fato, estou escrevendo essa carta no nosso apartamento numa cidade grande. Não necessariamente no centro, mas pertinho do metrô, o que da quase no mesmo. A cidade grande, no caso, é São Paulo, mas pasme: com muito mais frequência do que a gente jamais imaginaria, a gente tem se perguntado se quer o ritmo de São Paulo por muito mais tempo. 

A gente nem tem mais diário pra desabafar! Mas essa história que você queria de viver sem meio termo, isso aí não existe não viu? Ainda mais pra gente! Com terapia, mapa astral, leitura de aura e muita reflexão entendemos que a gente é intensidade pura! Acredita? É, eu demorei pra aceitar também. Mas essa coisa de intensidade, que soa muito poética, é na verdade uma grande porcaria. E faz ser bem necessário procurar o meio termo pra tudo e não surtar ou evitar a maior quantidade possível de surtos.

A gente fez a nossa viagem dos sonhos! E isso ajudou a gente a entender o que são sonhos. E essa sua gracinha do começo da carta, de dizer que, com 20 anos, você já tinha mudado de sonhos várias vezes, está bem errada, senhora. Seus sonhos sempre foram mais ou menos os mesmo. Mas agora que a gente sabe disso, ta mais possível ir atrás deles. Algumas coisas da sua lista ainda não aconteceram. Mas algumas delas não são mais tão relevantes pra gente, tipo publicar um livro. A vontade de escrever sempre volta de tempos em tempos (visto que cá estamos), mas a gente vai lidando assim.

Os sons que embalam seu dia hoje, 14 de junho de 2022, são bem diferentes dos de 2012 e, apesar de estar feliz, me bateu uma saudade imensa de ouvir um jogo de futebol aleatório na TV enquanto eu escrevo. Engraçado que isso nem tem relação com as coisas que você queria né? Provavelmente porque você não imaginava que ia querer que seus avós pudessem conhecer seu apartamento, ver a sua avó sem saber como interagir com a sua gata (aham! você tem uma gata!), seu avô achando engraçado, todo mundo tomando um café depois do almoço na mesa de jantar que seu pai fez. Acho que a dica é: da pra ir atrás do que você quer, enquanto curte o que já ta rolando.

E hoje, você sabe sim onde você quer chegar, mas a verdade é que você sempre soube.

quarta-feira

Positividade tóxica é meme?

Foto por Pawel Czerwinski no Unsplash

Cara, eu fico muito triste quando a gente usa tanto um termo que ele vira meme. "Tóxico" foi um deles, né? Hoje, se a gente fala pra alguém "você é tóxico!" vai ter muito menos impacto porque a gente usou tanto, que virou piada. Esses dias mesmo estava numa conversa que alguém falou de positividade tóxica num tom irônico e eu fiquei triste. Porque positividade tóxica é um negócio bem real. 

Quando eu ainda estava tentando retomar a vida de ~blogueira~ (outra palavra que virou meme), comecei a fazer um texto quando a gente ainda tava no começo da pandemia. Não terminei o texto, mas da uma olhada num trecho dele:

"Hoje cedo, enquanto tomava café da manhã, vi os stories de uma amiga. Uma sequência dela fazendo um suco detox e um omelete e ela fechava com "comece bem a semana", ou algo assim. Fiquei irritada!

Não me entenda mal, os stories estavam lindos e eu adoro a pessoa que os postou. Mas acontece que a minha semana estava começando (depois de mais um feriado "forçado" aqui em São Paulo) e não tava começando bem não. E não é porque eu não queria que começasse bem. Meu amigo, se tem um negócio que eu quero é que a minha semana comece bem, principalmente no meio desse apocalipse que a gente está vivendo. Só que, se em uma situação normal, a gente já não tem muito controle sobre o nosso humor, imaginem vocês, no meio de uma pandemia.

'Bla, bla, mais um surto da quarentena na internet' pois é! Mas acho que todo mundo tem direito de surtar na internet durante a quarentena não é mesmo? Então com licença porque ninguém vai chover no meu surto não!"


Deu pra sacar a pegada da positividade tóxica nessas aspas? Todo mundo quer ser positivo, otimista, mas tem dia que simplesmente não da.

No comecinho desse texto, eu falo sobre um artigo que li sobre como a gente precisa parar de falar pras mulheres amarem seus corpos. Parece absurdo né? Mas tem relação com a positividade tóxica. Se a gente vê todo mundo se amando, convivendo bem com o próprio corpo e ninguém fala dos dias ruins, se eu acordo me sentindo mal, e olhar no espelho está um pouco mais difícil eu sinto que estou falhando. 

Outra cara pra positividade tóxica pode ser a turma do discurso "vamos sair pessoas melhoras da pandemia". Colega, se a gente sair vivo já vai ser show! Além de sobreviver num país em crise econômica, durante uma pandemia, você quer que eu arranje tempo pra ser uma pessoa melhor? A verdade é que vamos sair todos com novos traumas pra cuidar na terapia, isso sim.

Falar sobre positividade tóxica não é algo novo. É resgatar o "It's ok not to be okay" (tudo bem não estar bem") ou a Hannah Montana cantando "Nobody's Perfect". Que bom que, no final das contas, quando um jeito de falar sobre o assunto vira piada, a gente encontra outro. Por que é importante lembrar que ta todo mundo tentando, e a gente não ta falhando se não conseguir fazer um suco detox e um omelete pro café da manhã no meio de uma pandemia.

sexta-feira

O que é beleza pra você?

Estou pra entrar num período grande de mudanças na minha vida. Deus sabe que esse ano mal passou da metade, mas já teve acontecimentos pra bem mais do que doze meses. E talvez seja por isso que eu esteja me sentindo meio nostálgica, olhando pra trás pra ver que as coisas eram bem diferentes do que são hoje e que tudo bem continuar mudando. Nessas investidas nostálgicas, comecei a olhar alguns posts do falecido blog "Pequena Schall" que nunca foram pro ar e topei com esse texto. Ele me trouxe um sentimento tão bom que decidi postar assim mesmo, sem alteração nenhuma. Ele foi escrito logo depois do Carnaval de 2017, então fica aí a minha vibe pós Carnaval pra você.

Foto por Cris Lustosa

"Vamos conversar sobre uma coisa aqui rapidinho? O que que é bonito pra vocês? Sério mesmo, se você puder deixar a sua resposta nos comentários (ou mandar por inbox mesmo) eu vou ficar bem feliz. Mas o negócio é que eu me peguei pensando sobre beleza e a sua relatividade, quando, na segunda-feira pós bloco de Carnaval da Orquestra Voadora em São Paulo, escutei uma pessoa no trabalho falando mal (e achando engraçado) sobre uma das moças que estava no bloco. Devido à falta de intimidade com o ser-humano em questão e, o que provavelmente teve mais participação, a falta de vontade de comprar briga, mantive a minha boca fechada e guardei meus pensamentos pra mim. Mas isso vem me incomodando tanto desde então que agora estou aqui despejando mais um punhado de palavras na internetê (coisa que não faço há bastante tempo, aliás. Então acho que ta tudo bem largar esse textão aí).

Voltando a fala que desencadeou toda a reflexão que estou prestes a fazer, a pessoa deixou claro que achou a moça feia e estava achando engraçado que ~uma pessoa como ela~ estava la no meio se sentindo ótima. Pra começo de conversa chega a ser inquietante a dificuldade de c e r t a s  p e s s o a s de compreenderem que ninguém vive pra ser paisagem. Ninguém ta nesse mundo pra você achar bonito ou não, pra ser "agradável de olhar" ou não. Mas o que mais me incomodou foi a dificuldade da pessoa que proferiu essa fala, não de não ver beleza na menina, mas na situação como um todo.

Caso você não tenha tido a oportunidade de ir a um desfile da Orquestra Voadora, tente imaginar a coisa toda: Carnaval, um dia maravilhoso de sol, músicos sensacionais tocando na rua de graça pra quem quisesse ouvir, um mundo de gente fantasiada e desconhecida se esbarrando e achando graça, interagindo com alegria e delicadeza, coisa que não acontece todo dia. Artistas de circo, embalados ao som da orquestra, fazendo piruetas, contorcionismos, dançando em cima de pernas de pau e fazendo todo tipo de estripulia pra arrancar reação das pessoas que estavam em volta ou só pra se divertir mesmo. Mulheres se sentindo a vontade e seguras o suficiente pra ficarem no meio disso tudo sem camiseta, sem sutiã, e (quase) todo mundo sem medo de ser como é, só curtindo esse dia bom.

Não preciso deixar mais claro que eu tava me sentindo muito bem em poder presenciar tudo isso, certo? Acho que foi por isso que, no dia seguinte, fiquei tão triste em escutar o ponto de vista de outra pessoa sobre um dia que, pra mim, foi tão bom. A dificuldade das pessoas de enxergar beleza nas coisas é algo que vem me perturbando. É preocupante perceber o quanto o conceito de beleza das pessoas ao meu redor é engessado, moldado por padrões de "normalidade".

Nunca sei bem como eu deveria terminar uma reflexão dessas. Acho que só posso deixar um humilde pedido pra que você, que chegou até esse ponto do texto, tente ver beleza no mundo além da estética, além do que é material e palpável. Por favor, acredite quando digo que a beleza também ta na sensação, no sentimento, na intenção. Eu, honestamente, acredito que fica mais legal e mais fácil viver quando a gente consegue enxergar beleza em mais coisas do que esperam que a gente enxergue. Então, tente abraçar mais coisas quando você pensa em beleza. Pode ser que o mundo pareça mais daora pra você no final do dia."

quinta-feira

Como Dançar me Ajudou a Confiar mais no meu Corpo

Há quase dois anos, eu decidi começar a fazer aulas de Rockabilly! Muitas coisas me levaram à essa decisão, o gosto por esse tipo de música que me acompanha desde criança (brigada, pai), o meu momento de vida que pedia que eu encontrasse algo novo e só meu e a certeza de que, se eu não me sentisse bem, eu não precisava voltar. Não vou entrar (muito) no mérito de como aulas de dança podem ser opressoras pra gordos, só vou deixar a reflexão aberta aí.

Lembro que eu estava animada, mas apreensiva pra primeira aula! Eu queria muito que desse certo! Pedi desculpas pra todo mundo que dançou comigo, "oi! é minha primeira aula ta? desculpa qualquer coisa!", mas lembro de rir bastante, conhecer muita gente nova e quando percebi, a aula já tinha acabado. Parecia que tinha durado dez minutos!!! Voltei pra casa praticamente flutuando enquanto procurava um álbum com as músicas mais famosas do Carl Perkins na internet.

Foto por Diorandi Nagão

Continuei pedindo desculpas pras pessoas por mais umas quatro aulas. Mas aí tudo foi ficando muito natural, eu percebi que todo mundo estava aprendendo junto, comecei a me sentir parte daquele grupo, parte da "galera que dança". De lá pra cá já fiz mais dois cursos de dança e comecei outros três (entre mais algumas aulas experimentais e workshops)!

Uma situação muito específica me fez perceber que a relação com o meu corpo estava mudando por causa da dança. O Mamilos fez um episódio sobre gordofobia que você pode escutar clicando aqui. Esse programa (como quase todos os outros) gerou muita discussão, em especial, uma no grupo do podcast no Facebook em que um ouvinte, basicamente, pedia provas de que "ser gordo não é preguiça". Eu estava acompanhando toda a discussão mas decidi não me meter, até que a minha irmã disse que eu deveria contar a minha história pro tal ouvinte.

Foto por Diorandi Nagão

A minha história era a seguinte: estou fazendo aulas de dança, pelo menos duas vezes por semana, tenho saído todo final de semana pra dançar, fico quatro horas ou mais dançando direto. Senti meu corpo respondendo de forma positiva a isso, a minha resistência estava aumentando, meu fôlego melhorando. Mas eu não emagreci nenhum grama! Ou seja, meu corpo estava me dando sinais de que estava em melhor forma, sem, necessariamente, precisar da diminuição do meu peso pra isso. O cara invalidou o meu comentário muito rápido. Mas a partir daí, eu comecei a reparar ainda mais no meu corpo. Meu peso ainda é o mesmo de antes de eu começar a dançar, mas meu corpo tem feito tudo o que eu quero que ele faça! A minha insegurança com relação à alguns passos tem me impedido de avançar muito mais do que o meu corpo! Tem muitos passos que me fazem falar coisas como "eu, sou grande, cara, é difícil fazer isso!" e os amigos que dançam, constantemente me respondem com "é só ter confiança!" e, na maioria esmagadora das vezes, eles estão certos!

Foto por André Kanamura

Em suma, o que eu quero dizer é: quando você tem um corpo fora do padrão de beleza da sua época, você é ensinado que, primeiro, tem que conseguir o corpo padrão, pra só então merecer fazer o que realmente tem vontade. Mas meu corpo tem me mandando a mensagem clara de que não é bem assim! Que eu posso, e devo, tentar fazer as coisas que eu tenho vontade, que o meu peso ou o meu tamanho, não deveriam me impedir! Eu só descobri isso, confiando nele! E isso é bom demais!

terça-feira

Não to Aqui pra Aceitar Falha, More!

Photo by Jeremy Cai on Unsplash

Tem algum tempo que li esse post do Hello Giggles que tem como título 'How telling women to "love" their bodies all the time is actually body-shaming' ou, em português 'Como falar para mulheres amarem seus corpos o tempo todo, na verdade pode ter o efeito contrário'. Rejeitei o título logo de cara, mas (ainda bem) decidi ler o texto mesmo assim.

Resumindo, o post fala sobre como o termo "body-positive" foi tomado pela mídia e por empresas que distorceram o seu significado, fazendo com que ele voltasse a referenciar um padrão de beleza branco. Fala sobre como isso de "amar o seu próprio corpo o tempo todo" virou só mais um item na lista de obrigações das mulheres e que ta tudo bem não gostar do seu corpo sempre.

Mesmo tendo alguma noção de tudo isso, o movimento de "body-positivity" nunca perdeu o significado pra mim, nunca me pareceu uma imposição, soa mais como um lembrete amigável, "é muito bacana estar em paz com o seu próprio corpo independente do que a sociedade diz sobre ele, acho que você devia tentar fazer isso". Por isso fiquei meio revoltada com o título do texto, mas la pela metade dele já fui lembrada de que é importante entender que eu não posso esperar que o mundo inteiro enxergue as coisas como eu e que a jornada de amor próprio de cada pessoa é sempre muito única.

Mas o que eu realmente quero falar aqui (perdoem esses três parágrafos de introdução, eles foram necessários) é que, a partir desse texto, comecei a refletir sobre isso de "aceitar as suas falhas". Pedir pra que eu aceite as minhas falhas, implica na existência de algum ser perfeito que não possui nenhuma delas, mas, paciência, eu não posso me igualar a esse ser. Só que isso não existe! Sem photoshop -prepara o coração pro clichê- ninguém é perfeito!

Talvez o pensamento mais saudável seja: galera, estria não é falha, gordura não é falha, celulite não é falha, cicatrizes não são falhas, pelos não são falhas, etc, etc... tudo isso é natural e faz parte de ser humano. Então a gente não tem que aceitar porcaria de falha nenhuma, porque na real elas não existem! É realmente muito inteligente, em um mundo capitalista, fazer mulheres acreditarem que elas tem que eliminar todas essas coisas, porque, afinal de contas, absolutamente todas as mulheres do planeta Terra terão pelo menos uma delas. Aí é só fornecer produtos e serviços que prometem eliminar essas coisas e -tcharã- teremos uma fortuna. Entende o meu raciocínio?

Nós fomos manipuladas para acreditar que temos falhas que precisam ser corrigidas! É claro que o slogan "aceite as suas falhas e seja feliz" também pode ser positivo, dependendo de onde você está na sua jornada to ~self love~, do seu momento de vida, etc. Mas gostaria de plantar essa sementinha no seu coração: você não ta nesse mundo pra aceitar falha nenhuma não, porque esse rolê de falha na verdade é uma grande cilada!

Número de vezes que a palavra "falha" foi utilizada nesse texto: 12.

segunda-feira

Responsabilidade Emocional - Uma Reflexão

Comecei a assistir Grey's Anatomy! Não sei bem o que me impedia de assistir antes (provavelmente o fato de estar na DÉCIMA QUINTA temporada), mas o fato é que comecei. E assistindo ao último episódio da segunda temporada, lembrei de como cultura pop no geral pode servir pra gente entender o mundo e as pessoas. Como eu sou um exemplo de ser humano que decidiu se enfiar no fandom depois de mais de uma década de série, sei que ainda tem muita gente que não assistiu então vou tentar não dar spoilers.

Tem uma personagem que claramente se importa muito com outra pessoa. Essa outra pessoa está passando por um momento absolutamente difícil e decisivo e precisa de todo apoio que ela puder ter, mas aí, em um momento, a primeira personagem só observa de longe essa pessoa com quem ela se importa sofrendo sozinha e depois se afasta. Eu revirei os olhos assistindo essa cena, pensei "ela tem que decidir se está do lado dele ou não!", mas com mais alguns minutos de episódio vi essa primeira personagem desabafar, aos prantos, que nunca tinha sentido tantas coisas até aquele momento, que ela sabia lidar com qualquer coisa, que sempre teve as respostas, mas que agora estava muito difícil decidir o que era a coisa certa e fazê-la.



Foi com essa cena, a do desabafo, que eu fui lembrada que ta todo mundo tentando! Pessoas más existem, mas, na maioria das vezes, ninguém é um gênio do mal! Ninguém (ou quase) faz coisas com a intenção de machucar as outras; se afastar, não responder uma mensagem, se aproximar demais, voltar depois de um tempo longe, mostrar que se importa, ter medo de mostrar que se importa... no geral, nada é feito pra traumatizar alguém ou pra reforçar algum trauma. E é importante lembrar disso! Mas isso não é o suficiente! Acho que a gente tem direito de ter medo, tem direito de não saber lidar com alguma situação e tem direito de ter tempo pra pensar em como a gente quer resolver os nossos problemas. Só que quando as nossas ações podem afetar outra pessoa (sendo essa outra pessoa importante pra gente ou não), é nossa responsabilidade se importar com isso!

Eu ia ficar elucubrando aqui, falando sobre a importância de lembrar que os sentimentos de todo mundo importa, mas isso pode ficar muito abstrato, ou soar muito clichê então vou tentar ser prática e usar exemplos. Uma situação que eu vejo acontecendo com muito mais frequência do que eu gostaria é a seguinte (vou tentar usar genderless names aqui, ok?): quando Lucimar está mais envolvido na relação do que Yvoti, Lucimar sofre, espera que Yvoti dê valor para os seus sentimentos, exige respeito. Mas quando Edilei está mais envolvido do que Lucimar, Lucimar se acha irresistível, "ah lá Edilei apaixonade por mim!", Lucimar se irrita porque Edilei continua procurando Lucimar mesmo depois dele tentar sumir sem dar satisfação. Ou seja, para Lucimar, seus sentimentos importam e devem ser respeitados, mas Edilei não pode exigir o mesmo tipo de consideração de Lucimar.


Responsabilidade emocional é, além de aceitar e respeitar o que nós mesmos estamos sentido, ter empatia com o outro, saber que do outro lado também existe uma pessoa com bagagem, com traumas, que está tentando seguir a vida da melhor maneira que pode. E, na boa? Isso é óbvio! Todo mundo sabe disso! Principalmente hoje que somos lembrados disso o tempo todo, quando você escolhe seguir a vida, sabendo que outra pessoa pode estar mal por causa das suas ações, é uma decisão consciente! Não estou dizendo que não podemos magoar ninguém, mesmo porque as vezes realmente não temos como dar pro outro o que ele precisa. Mas existem mil maneiras de deixar isso claro! Só o fato de falar pra outra pessoa "isso que você quer de mim, eu simplesmente não consigo te dar agora!" já mostra você sabe que o outro também sente e que esses sentimentos são válidos. Entende?

Vivemos em tempos difíceis, isso é inegável! A ansiedade é o mal do século, é doença moderna! E a gente sabe disso! Novamente, ta todo mundo tentando, a gente segue a vida na base da tentativa e erro. Por isso é importante tentar fazer, da maneira que der, com que os dias de todo mundo fiquem um pouco mais leves e isso começa na empatia.

As ilustrações nesse post são da Sara Herranz.